logo


por
isaac prozac


nem todo velhinho é um bom velhinho
espírito de natal é coisa pra chico xavier!

A época de natal sempre me traz recordações dolorosas.
Lembro-me que aos seis anos meu avô me ensinou a alimentar as aves de seu sítio. Era julho, férias no jardim da infância onde tinha desperdiçado um sexto de minha vida, e meus pais pretendiam viajar para um lugar onde aparentemente não eram permitidas crianças e bolsas a tiracolo. Fiquei o mês inteiro alimentando galinhas e perus, mas era muito gratificante. Eu me sentia um deus benevolente ajudando àquelas histéricas criaturas desprovidas de inteligência superior. Era uma espécie de baco dos ovíparos.
Havia um peru realmente magro que destoava da multidão. Ele era anoréxico. Por mais que meu avô tentasse alimentá-lo, parecia que a comida não fazia-lhe bem. Fiz da saúde dessa criatura meu objetivo de vida. Bem, aos seis anos isso parecia ser tudo que a vida podia me oferecer, mesmo.
Durante dias, tentei variar seu cardápio, usando minhas fantásticas forminhas de massinha para modelar sua ração. Minha estréia precoce na nouvelle cuisine seria totalmente frustrada. Hoje, vejo que eu também não gostaria muito de uma refeição com o indigesto rosto do palhaço bozo.
Um dia, revirando o depósito de ração do vovô, encontrei um saco de ração para codornas esquecido num canto. Eu sabia que codornas eram fabricadas apenas em ovos, para vender no supermercado. E, ora, ovos não precisam de ração. Aquilo deveria ser uma espécie de código para ocultar um tipo de super ração espacial. Vovô nunca me enganou, eu sabia que seu isolamento num sítio era apenas parte de um disfarce da CIA para proteger sua verdadeira identidade de químico da NASA (se bem que na época eu também acreditava ser ele o sr. wonka, da fantástica fábrica de chocolates).
O peru adorou a ração - é claro, era da NASA - e engordou a olhos vistos, em pouco tempo. Em princípio, meu avô estrilou um pouco, dizendo que aquela ração era para outros passarinhos, uns bichos feios e pequenos de um viveiro isolado (coitados, eles pareciam mesmo precisar da super ração); mas depois, ao ver a transformação do animal, elogiou-me muito. Provavelmente viu-me como seu sucessor na carreira científica, e percebeu que a dinastia não havia acabado.
Era como se mila moreira tivesse tomado cortisona. O peru ficava robusto, destacando-se dos demais, e meus avós admiravam com gosto o trabalho de seu neto.
Meus pais vieram me buscar no fim das férias, e estavam incrivelmente bronzeados. Talvez não deixassem entrar crianças no tal lugar para onde foram porque o sol era muito forte para a delicada pele infantil.
Minhas aulas começaram, mas eu já estava ansioso pelas férias de dezembro, onde poderia rever minha criação. Eu era o mentor precoce de toda a indústria avícola.
Dezembro enfim chegou, e meu avô convidou toda a família para passar a ceia de natal no sítio. Eu vibrei, é claro, poderia ver o desenvolvimento de meu projeto de férias. Talvez vovô deixasse até que eu o levasse no próximo ano letivo. Sabe, as professoras (todas, do jardim ao colegial) costumam voltar irritadas das férias e sempre brindam as crianças com redações criativas. Meus colegas de classe dissertando sobre pôneis e conchas, e eu apresentando uma tese fundamentada sobre a super ração espacial.
Ao chegarmos, corri eufórico até a granja, certo de encontrar um peru de 2 ou 3 metros. Ele não estava lá. Meu avô, ao ver meu desapontamento, disse que o peru estava dando um passeio pelas redondezas, mas que estava gordo e belo como nunca.
Passei o dia esperando o peru. Sabia que notaria sua chegada, um peru globetrotter não é difícil de visualizar. Sentamos todos à mesa, com meus primos insuportáveis (como eles ousavam atirar cascas de nozes em mim? Provavelmente não sabiam de minha contribuição para a humanidade), mas minha atenção estava concentrada na janela da sala. Onde estaria meu futuro prêmio nobel?
Vovó trouxe o prato principal. Senti-me como se meus glóbulos brancos fossem fabricados pela kibon. Lá estava ele, gordo e belo como nunca, decapitado e recheado de frutas cristalizadas, para o deleite daqueles romanos gordos e insaciáveis. Foi horrível. Lembro apenas da cara de horror de meu primo, que apontava uma pinha para a minha cabeça. Toda a maionese que eu tinha comido até então resolveu se manifestar em favor do morto, e espalhou-se pela mesa, atingindo boa parte daquela horda de assassinos.
Nossas ceias de natal posteriores nunca mais foram iguais, havia agora uma mesa para adultos e outra para crianças, onde, sem a supervisão dos pais, meus primos podiam me espancar à vontade.
Desde então, e até os treze anos, fiquei realmente desconfiado dos interesses de mamãe por minha alimentação, sempre sugerindo que eu estava magro demais. Adquiri a estranha impressão de que, se bobeasse, eu seria o próximo a passar o natal coberto com molho de mostarda.


link you!
sadia
perdigão
anorexia
nasa
molho de mostarda


também nesta edição:

papa-móveis não têm airbag!


topo da página

menu principal, por favor