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por
isaac prozac


o presente mais traiçoeiro para o dia das mães
proibido o manuseio de chinelos sem porte de arma!

Quando era bebê, lembro que meu ideal de mulher seria alguém como mamãe: linda, alta, prolixa e, principalmente, que soubesse fazer papinha. Bem, é tudo que se espera de uma mulher quando a história de sua vida pode ser escrita com crayola. No entanto, com o passar dos anos, mamãe começou a se mostrar assustadoramente perigosa.
Eu tinha cinco ou seis quando, após derrubar o pequeno zoológico de cristal que minha avó guardava em sua antiga cristaleira de mogno, conheci o principal acessório do guarda roupa materno: o chinelo.
Era estranho. Não era ameaçador como a cinta de papai ou, posteriormente, os dedões anti-acne de minha irmã mais velha. O chinelo de mamãe era vistoso, de matelassê - uma espécie de edredon em miniatura - e tinha arminho no topo (por muito tempo eu achei que arminho era o nome científico dos chinelos).
Vale dizer que o motivo que decorava o artefato bélico que mamãe usava nos pés também era inofensivo: flores. Quem imaginaria ser abatido por um buquê de miosótis? Claro, isso acontece geralmente em casamentos, mas faz parte do cerimonial. Todo mundo sabe que, quando a festa está se arrastando e os noivos querem ir embora, eles vão atirar o buquê no convidado mais desagradável - é praxe! Mas, chinelos! Dizem que não se bate em uma mulher nem com uma flor, mas eu posso negar: minha irmã também sofreu a ação daquele calçado hipócrita e primaveril (e creio que essa experiência traumática deve ter influenciado muito em sua tendência sado-esteticista em minha adolescência). Comecei a entender o sentido da expressão 'flower power'.
O solado - a parte interativa do chinelo - era absurdamente danoso e resistente. A borracha se tornara uma tendência nos solados da época, mas o par de monjolos ainda tinha uma artesanal sola de couro rígido. Como se não fosse suficiente, a cada chinelada minha mãe parecia impingir mais vigor, como se fosse frustrada por não trabalhar na construção civil. Até hoje o número 37 está impresso em minha nádega esquerda.
Não era difícil saber quando tinha feito algo errado. Se ouvia uma conseqüente e aterradora alternância de sons: espalmado e seco, espalmado e seco - deus, isso me arrepia até hoje - e ela surgia, com uma expressão pró-aborto e mancando com um dos pés descalço. Eu observava em que mão estava o chinelo, supondo que a esquerda tivesse menos força (é o que a gente aprendia na vila sésamo), mas as mães possuem duas capacidades natas: meteorologia e ambidestria. Não importava o lado que batesse, a sova seria inesquecível.
Por volta de meus vinte anos, mamãe comprou uma enorme pantufa. Repentinamente percebi que era a hora de sair de casa.


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