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por
isaac prozac


redrum
só trabalho sem diversão faz de jack o funcionário do mês!

Aos quatorze ou quinze anos, resolvi abandonar meu estilo de vida economicamente passivo - mas que fique bem claro: naquela época ativo e passivo eram termos usados pelo ibge, não pelos clubbers.
Embora tivéssemos bidê no banheiro e um videocassete betamax, minha família nunca foi exatamente rica. Pertencíamos àquela parcela da sociedade que possui o dinheiro suficiente para pagar os impostos que as outras duas parcelas não pagam, por motivos diversos.
Mas, embora tivesse crescido consciente do meu karma proletário, meu pai não me queria na labuta antes de terminar a faculdade - o que demoraria, com alguma sorte e alguns implantes neurais, no mínimo uns seis anos. Mas eu não ousaria contrariá-lo: embora ansiasse por liberdade, sabia bem quem pagava o meu acnase.
Foi quando apareceu quem, indiretamente, mudou a opinião de meu pai e, diretamente, mudou o conceito de simetria capilar: robert smith.
Não, não era o precursor do paulo gaiarsa - este se chamava eduardo mascarenhas. Robert smith era o líder do cure - sim, a banda. Talvez a primeira atração internacional que aportou aqui em pleno auge, fazendo todo mundo cantar e se vestir como seus integrantes. Tá, tudo bem, teve o menudo antes - mas se você não se incomodar, eu preferiria não entrar neste assunto.
Era evidente que meu pai nunca patrocinaria minha entrada num show onde o cantor usasse batom - embora ele mesmo tivesse a discografia completa do cauby - e, portanto, concordou que eu trabalhasse para pagar o acesso ao ginásio do ibirapuera.
Como não tinha qualquer experiência profissional, minhas opções eram mais escassas que as da narjara tureta: ou balconista, ou faxineiro, ou atendente do macdonald's.
Usei a lógica: como o último nada mais é que a soma dos dois primeiros, em um mês de trabalho eu teria o equivalente a dois meses de experiência - o que me proporcionaria uma oferta melhor no futuro! Aceitei o emprego, confiante na matemática trabalhista.
Limpar mesas ensebadas de fórmica e espremer hambúrgueres na chapa sorrindo ininterruptamente construiu meu caráter mas destruiu meu maxilar. A cada hora que passava, eu somava os centavos correspondentes em minha hp mental - em cinco ou seis séculos poderia declarar minha independência financeira e me aposentar com dignidade.
Porém, deslumbrado com as possibilidades de uma carreira tão promissora, nem me preocupei com as despesas. Um dia, no ponto de ônibus, coloquei a mão no bolso - e tirei rápido, antes que a mesma fôsse sugada pelo vácuo: as seis conduções que tomava para ir e voltar do trabalho diariamente (ei, eram os anos 80, ainda existia certo espaço físico entre os macdonald's) haviam consumido todo meu salário! Não tinha nem o bastante para ir trabalhar, quanto mais ao show do cure.
E desde aquele dia, associo boys don't cry e holleriths. Talvez porque eu segure o choro sempre que recebo o meu.


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