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por
isaac prozac


coelhinho, se eu fosse como tu...
a páscoa é um domingo meio amargo!

Quando tinha oito anos, fui assolado por uma tosse noturna que durou vários dias. Meus pais discutiram e chegaram à conclusão de que o sono seria muito mais tranqüilo sem o incômodo da tosse boêmia - o que é gozado, pois eu não me sentia nada incomodado, vinha dormindo muito bem. Me incomodava muito mais a visão das olheiras de papai à mesa do café da manhã; ele deveria fazer uma máscara de pepinos ou algo assim.
Mamãe levou-me ao pediatra, que, após tirar o meu sangue - e outras substâncias que, aos três anos, eu choraria ao ver descer com a descarga - foi taxativo em seu diagnóstico: alergia a chocolate! Era necessário que eu parasse de lambuzar-me com sensação e seus artificiais gostinhos de coco, laranja, morango e limão. Ora, proibir chocolate a uma criança de oito anos é como pedir a ney gonçalves dias que deixe de usar ombreiras!
Ainda não existiam ovos-surpresa - desses que o chocolate é supérfluo - e papai e mamãe simplesmente acharam por bem sublimar a festividade. Como se fosse possível ficar alheio aos coloridos comerciais da lacta na tv.
Meus colegas de escola faziam planilhas de quantos ovos ganhariam, discriminando peso, textura e quantidade de bombons. Havia até uma competição interna acerca de qual classe tinha mais condições de manifestar diabetes. Só pra constar, a quarta série ganhou.
O fatídico domingo chegou, e eu parecia ser a única criança na face da terra sem os dedos cobertos por manteiga de cacau e aroma imitação de baunilha. Bem, é verdade que aos oito anos a face da terra resume-se a quatro ou cinco quarteirões.
Eu precisava fazer alguma coisa: o ascaris lumbricoides que cultivava desde a extinção de sucar pops clamava por ovos de páscoa!
Fui à cozinha, e, envolvido em um transe pascal, abri a geladeira, peguei uma dúzia de ovos de pata (aqueles com duas gemas) e corri desembestado para meu quarto - o que significa que cheguei com apenas sete ovos.
Munido de meu arsenal de sylvapen, decorei-os com toda a criatividade que uma pessoa pode conter aos oito anos - e que os publicitários tentam desesperadamente resgatar aos trinta. Eram lindos, de todas as 36 cores possíveis, e os devorei como se tivessem vindo diretamente de alguma granja da lindt.
E por muitos anos a partir desse domingo eu relacionei a páscoa e seus saltitantes coelhinhos ao significativo aumento em minha taxa de colesterol.


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